Crónicas Errantes


17.4.07
Me despedi. Sem palavras.
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7.2.06


Me despeço, antes de ir
Com uma saudade arrependida

Vejo, no clarão da morte anunciada
A redenção
A espera fantasiosa do perdão
Pelo desperdício da beleza não vivida

A flor da era verde anuncia
Da primavera o encanto
Matinal formatura do episódio
Como quando me entrego
Afogado no próprio pranto

28.11.2005.
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4.1.06

Se por acaso eu parar
me esquecerão

Se por acaso eu voltar
me esquecerão

Se por acaso eu desistir
aplaudirão

Se eu obstruir
me prenderão

Se eu abdicar
me insultarão

Se eu recomeçar
não acreditarão

Se eu voltar à casa e de lá não mais abrir a porta, então é provável que eu me encontre. É provável também que refaça todos os conceitos, minuciosamente, e veja, ao final de tudo, que estive certo. E isso de nada adiantará, inclusive, para nada.
Entorpeço-me com a tristeza, e nela me vejo como a galope, rumando sereno ao final tênue do esquecimento. Por certo lá chegando terei a paz que não tenho agora. E que talvez nunca tive.

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27.12.05

As vezes canso e desço à quinta dos infernos. Lá não me encontro, porque desci justamente por não saber onde estou. A primeira leitura de tudo é esse cansaço deliberante, bélico em seu sentido extenso.
Não há então coisa que reste-me saudar. Não há, também, o que se dizer belo ou terminantemente confortável.

Procuro o poder persuasivo de silenciar.

Contento-me em fazer planos de pôr fim à tudo. Contento-me em satisfazer a esperança, matando-a num futuro mais calmo, em uma noite bêbada, onde porei fim a todos os remorsos. Onde porei fim ao que quero, ao que sou e ao que deveria ser.

Não importa-me o conforto dos próximos, terão eles que aprender com a dor como eu aprendi. E se quiserem furtar-se do sacrifício, que sigam a ler as páginas que cegam as dores, os sentidos e o prazer. Preparem-se também para conviver, literalmente, com a insígnia eterna da cobardia.

Não passa incólume pela vida aquele que se põe a pensar e, antes, a sofrer.

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15.10.05

A vista toda é de uma natureza humana e morta. Humana porque da displicência nasce a pobreza e, desta, a miséria. Morta, porque o cinza das ruas e das pilharias amontoadas nas calçadas, dava ao ar um pútrefe odor, returgindo massivas ondas de morte que aumentavam consideravelmente ao calor. As aldrabas já verdes de tanto musgo, nas portas de uma madeira carcomida da poeril virtude solar eram guindadas, com pesar, por trancas enferrujadas já de tempos. As casas exibiam franjas das construções dos aracnídeos, como se para embelezar aquele lugar triste, os animais fossem mais competentes que os homens. De fato, a camada de casas enfileiradas naquela rua, ladeando umas às outras, como a matilha que espera a caça ao pé dos cavalos reais, já fora, em outros e antigos tempos, uma aldeia feliz, banhada ora pela visão das areias brancas, ora pela brisa do mar azul.
Já distante trinta léguas da aldeia mais próxima, aquele lugar era, então, habitado pelos filhos dos netos dos primeiros pescadores da Vila de São Sebastião. Essa vila era formada pela Quinta dos Batéis, que é esta que fica mais próxima ao mar; e juntava-se ainda o Monte do Corço, que fazia o caminho entre a Quinta e as feiras, e a própria feira, que tinha o nome de Pedra dos Bentos. Esses lugares, eram tão próximos geograficamente, quanto separados orgânica e humanitariamente. Os pescadores da Quinta entregavam aos de Monte do Corço, em silêncio, o produto da pesca, e como se estivessem também por vender as palavras, voltavam-se com elas à boca, como não tendo arranjado comprador. De Monte do Corço partiam os senhores das terras à Pedra dos Bentos, e na mais pura forma de oficialidade, numa frieza sobrehumana, combinavam os preços com aqueles milenares olhares parcimônicos.
De modo que tudo funcionava como um vasto organismo que não se dava, como um uma engrenagem sem correntes. As vielas, ruelas, cidades, quintas, montes e castelos tinham, em si, temperamentos como de gente, e estes próprios mudavam, de acordo com a proximidade em que iam ficando do mar. Enquanto em Pedra dos Bentos se podia comprar de tudo, desde talheres a sexo, em Monte do Corço o cultivo das vinhas só era interrompido duas vezes ao ano para as festas da religião. E em Quinta dos Batéis, nunca se ouvira falar em reunião maior do que aquelas para decidir quem levaria a pesca até o Monte.

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3.10.05
E hoje nos vejo divididos em dois grupos distintos: os que crêem sem questionar, os que questionam por que não crêem.
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21.9.05
08.09.05

Não sei até que ponto o conhecimento conforta. Há muito mais liberdade no esquecimento e na ignorância.
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08.09.05

Pequena divagação sobre o nada (e o nada).

Então, se não há um meio certo de se fazer as coisas; e, sim, um jeito único de se fazer alcançar o resultado da coisa, há em nós, o erro existencial (e essencial) de julgar.

O que vale em algo para o íntimo, não o vale com a mesma veemência para a exterioridade. E nada, então, é absoluto. Talvez aí resida mais uma peça fundamental do encaixe: a negação absoluta da radicalidade - e a glorificação divina do equilíbrio.

Nada é absoluto e nossa presença só a nós mesmos podemos provar. Prova - axioma estúpido - fracamente usado para aqueles que não tem valoração objetiva universal. Porque não há como julgar o íntimo, se nem o seu causador o conhece. Parece até que o ceticismo nos invade com certa coercibilidade que, não havendo forma inteligente de a negar, resta-nos a covardia do acatamento.
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05.09.05

De repente, toda a existência humana nada mais é do que um dia: o brotar da consciência ao raiar do sol - e a noite a velar a inconsciência, como a morte.
E no espasmo da tarde, a esperança.

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Hoje mesmo me surpreendi ao delatar-me simploriamente.
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29.08.05

De tudo o que desenho em meu pensar, nada é mais significativo do que o reto, do que o paralelo. Talvez porque em toda a realidade da minha vida, nunca tenha conseguido agir com a retidão que o sonho supunha.

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Eu já cansei de cogitar saídas. Cansei de pedir e receber. Quem nada busca alcança o que não deve ou o que não merece?

***

Às vezes me sinto como se tivesse cansado totalmente todos os músculos do pensar. Resta-me, então, a alegria de dormir e de cantar. Então, os músculos reais, os de sangue, cansam da cama e a garganta não aguenta a pressão. Acontece de me pegar, assim, pensando.

***

Me desprezo com os mesmos motivos de quem se limpa. Obessão fervorosa de supor necessidade vital. Ou moral.
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29.08.05

Preciso acabar com a dor, mas antes com a esperança. E como acabar com a esperança sem dor?

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29.08.5

Somos assim: eu e você
Somos assim: três quartos de bicho
um quarto de gente
e essa gente está em mim
caprichosamente
com um medo louco de você.

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29.08.05

Não tenho parado para pensar no que quero. E, deste aspecto, vejo-me perdido num átimo de perseverança e desprezo. Ora, porque, na real impossibilidade de tudo o que, suponho, seja sonho, persevero viver, como se nem a morte me aliviasse. Desprezo também o que sonham todos por mim. Se não tenho coragem de fazê-lo, resta-me desprezo em acatar as conveniências de um compromisso muito mais impessoal e ao mesmo tempo social, do que íntimo.


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20.08.2005

Essas crianças me terão na memória como alguém que, sozinho, sorria da clareza lúgubre de beber a solidão escrevendo.
Mas a ausência me levará, com o tempo, ao mais remoto mundo dos mortos - inclusive a dos mortos esquecidos da memória das crianças.
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20.08.2005

Erros de concordância

Eu pensei que, chegando em tua casa - ou em casa em que estivesse - e, respondendo à tua pergunta, me restaria dizer que a minha bagagem trago nos olhos. Trago também aquela tristeza interessante de quem, na ausência de palavras, busca baixar a cabeça e contemplar-se, como quem contempla o nada.
O que, afinal, de uma vez por todas, sempre foram a mesma coisa.

Não preciso de mais do que cem anos para dizer-te o que sinto. Mas provavelmente precise de mil anos para te explicar o que não sinto - e elencar isso de forma que seja possível perder-se na amargura de dias sem fim para bebê-las.

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